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Friday, August 17, 2007

O amor

Em grandes fachadas, liberadas de ar em mármores lascadas com manchas de cinza antes se impunha o enorme colosso.

Onde agora assoviam os ventos e curvam as pequenas palmeiras. Suscitam o esplendor do caminhar da moça.

O vestido é soerguido num ventilar desavisado. Ela o segura, busca o cabelo no rosto os põe para trás, delineia aos olhos de seu contemplador o pescoço alvo e fino.

Até ali andava despreocupada. Parou para avistar a sacada da construção antiga. Uma casa barroca, e detalhes de curvas e desenhos. O amor lhe invadiu.

Wednesday, July 25, 2007

Humberto


Dr. Gachet: Man with Pipe (L’Homme a la Pipe) - Vincent van Gogh - 1890
Beto é um homem muito inteligente, perspicaz e romântico. Às vezes ingênuo por acreditar muito nas pessoas. Com o decorrer dos anos se tornou desconfiado ao menor sinal de enganos e mentiras. No entanto, isso é facilmente contornado com uma boa dose de entrega e sinceridade da outra pessoa. Não gosta de joguinhos e prefere pessoas verdadeiras e sensíveis.

Numa noite, numa boate, Beto conheceu Mirna. Mirna era amiga de uma colega de academia. Ele a viu pela primeira vez ladeada por Renata e Elaine. Renata, linda, com um corpo de mexer com qualquer homem foi alvo de seu olhar primo naquela noite, mas ela estava desligada e parecia ter alguém. Elaine também muito bonita já era um pouco mais velha e um charme capaz de chamar a atenção de qualquer um que a olhasse. Mirna tinha um belo sorriso, não tão linda como as demais, mas igualmente interessante.

Concentrou-se em Mirna, a alvejava vendo-a como caçador. Buscou mais informações sobre aquela balzaquiana com Carlota. Estava sozinha, sem namorado, totalmente desimpedida. Beto estava num momento especial, tinha um bom emprego, acabara de um comprar um bom carro e vinha de uma conquista de causar inveja a muito homem. Essa mulher, no entanto era muito garota e ele não se dera muito bem com seus amigos. Sentira-se desconfortável com os papos. Muito imaturos para ele. Já estava em outro nível. E aquela menina tinha só 21 anos e ele 32. Não que a idade fosse problema, mas sua mente funcionava como se tivera quase 40, dado os relacionamentos que tivera antes. Quase sempre se relacionou com mulheres mais velhas que ele.

Voltemos a Mirna, sua boca alegre e a simpatia o encantaram. Em dado momento partiu com tudo. Tinha que ser naquela hora. Puxou-a para dançar e alguns minutos de troca de vistas tentou beijá-la. Ela quase resistiu, meio que embaraçada pela investida, mas ao mesmo tempo atraída por ele, beijou-o. Sem o deixar explorar toda, mais como algo entre um selinho e um beijo ardente.

Ele sempre fora de grandes paixões e investira muito em cada contato com as mulheres, as paparicava e as tratava como rainhas. Algumas vezes se dera mal com esse seu jeito. No entanto, Beto é um homem diferente de qualquer outro. Não é egoísta, é companheiro, gosta de ternuras e ao mesmo tempo se considera um tarado quando o assunto é sexo. Gosta muito da coisa, talvez por causa de sua vida sexual iniciada muito cedo.

Prefere tomar as rédeas da situação, que a mulher se doe ao máximo, pois tem certeza que tem equilíbrio suficiente para não desprezá-la ou parar com os mimos só porque já a conquistou. Para ele sua amada deve ser conquistada todos os dias, mas também é capaz de esfriar só porque a sua companhia o esnoba ou joga com seus sentimentos. Não gosta de sentir ameaças. Tem plena consciência que é um grande conquistador e por isso não se sente inseguro. Jamais traiu qualquer uma de suas namoradas, esse é outro ponto totalmente diferenciado de qualquer homem. Preza o que o outro sente e não quer ninguém magoado e triste principalmente por causa dele.

Mas, resgatando Mirna, ela foi sua parceira ideal por vários anos. Sua primeira noite foi estranha e pouco engraçada ou trágica, ele ainda não sabia ao certo. Passara o dia inteiro, um sábado, jogando futebol e fora se encontrar com ela. Lá pelas nove horas da noite, havia ficado na peleja por mais de sete horas seguidas. Era incansável. Um atleta. Pois, bem, foi sem nenhuma pretensão se encontrar com Mirna em sua casa. Era um dia chuvoso, aliás, chovia muito. Ela morava com a irmã e mãe, mas naquele dia em função do forte aguaceiro, estava sozinha e decidiu então doar-se. Em um dado momento começou a tirar a roupa em meio a uma penumbra. Ele adorou, fitou-a com desejo, mas não à primeira vista não gostou muito do que viu. Não a achou muito atraente, mas gostava muito dela. Ela despertava uma leve atração, o suficiente para aquele garanhão querer cobri-la. Como ainda estava sobre os efeitos alucinógenos proveniente do próprio organismo em função da enorme atividade esportiva, demorou muito a ter uma ereção. Somente lá pelas onze da noite conseguiu finalmente ter uma relação com ela. Não fora grandes coisas, não se conheciam muito e aquele comecinho o deixara muito tenso. Desde lá, criou uma espécie de bloqueio em relação aos primeiros encontros com mulheres. Era vigoroso na cama e tinha energia de sobra, mas a maioria das primeiras investidas passaram a ser duvidosas. Depois de um tempo, pouco tempo, diga-se de passagem, suas relações entravam no eixo e agradava em cheio a qualquer mulher que fosse. Ao longo de sua vida, despertou muitas paixões nas mulheres, arrebatadoras seria o mais certo. Suas mulheres nunca mais o esqueceriam.

Alguns anos depois, diante de uma relação tranqüila que o agradava em cheio, sem sobressaltos. Com poucas brigas entre os dois, afinal ele não era dado às discussões e tão pouco um ou outro davam margem as mesmas, se separaram porque o desejo se esvaiu. Não porque ele ou ela deixassem de gostar um do outro, mas porque ela passou a fugir de suas tentativas durante a noite ou madrugada. Ela como forma de sair da situação criara ou tentava fazer uma programação que os ocupasse todas as noites com encontros com amigos ou festas. Isso o deixou cada vez mais chateado. Tinha tesão por ela e queria mais contato com Mirna. Ela era do tipo caladona na cama, não pedia muito e não o ajudava a buscar tanto o seu prazer – erro maior da maioria das mulheres: esconderem suas fantasias e desejos e até posições preferidas. Mesmo assim ele tinha certeza que a fazia gozar. Talvez o ritmo que ainda permanecia nele não mais conseguia se manter nela, tanto é que ela vivia com sono enquanto ele sempre se sentia inteiro. Poucos diálogos a respeito foram efetuados até que em dado momento ele começou a sentir mais atraído por outras mulheres. Não tinha o que lhe cabia em casa. Como Beto é realmente um macho distante dos outros, fugiu da traição e deu-lhe um ultimato: “precisamos de mais tempo sozinhos!”. Ela disse que iria mudar, mas daqui a uma semana nada mudou. Então, ele saturado por meses de tentativas de alterar o panorama se coube a terminar o relacionamento que era de vários anos. Terminou num dia oito do mês corrente e já em 22 estava arrastando asas por outra, não por insensibilidade, mais por simples atração – que se apagara no romance anterior. Fora também o destino que o colocara agora diante daquela loira estonteante conhecida alguns meses atrás. Fora uma empatia, mas sem nada mais do que isso por causa de sua posição sempre fiel. Beto seria um bom exemplo?

Sunday, July 22, 2007

Comunique-se


Book - Richard Artschwager
Anteontem, 20 de junho foi publicado, o texto: “Olhos Verdes” no site Comunique-se, seção Literário.

Para acessar diretamente o texto* clique aqui

Ou então, veja-o aqui no próprio blog

É o sétimo texto do autor publicado no site.

* necessita de cadastro no site

Monday, July 16, 2007

Madrugada na cidade


Narragansett Bay from Jamestown (pair) - Charles Wilson Knapp - 1870
As gaivotas voavam em fila, com rasantes sobre o espelho d’água. Repentinamente, mudaram de curso. A formação agora estava em forma de “V”. Buscavam uma térmica para lhe diminuir o esforço e flutuar entre o mar e o céu. Passavam neste momento em frente à barca. Vistosas, com o peito alvo estufado para frente, pareciam estar orgulhosas pelo belo espetáculo que davam. Revoadas, acertos, mudanças, planadas, desvios, refluxos.

Os ventos lhes davam um ar de força. Vigorosas e leves. Vinham com as asas fortes, abertas, resistindo ao empuxo dos calafates. Depois, deslizavam pela brisa sem esforço como se aproveitando do momento.

Escorregavam pelo céu, felizes, soltavam pipiares de êxtase. Navegavam junto com as embarcações gostando do rastro dos peixes frescos. Avistavam mais longe, viam seu destino em deleite. Jovens aves, crianças,... queriam se divertir.

Alimentavam-se dos peixes e da agradável paisagem da baía. De um lado o Rio, o Pão-de-Açúcar e o Cristo Redentor, do outro a Fortaleza de Santa Cruz e as paradisíacas praias de Niterói.

Morros, mares, florestas, riachos, rochas se incluíam no lindo amanhecer da cidade.

Thursday, June 14, 2007

Tempos passados e o futuro próximo

Desertion - Marsden Hartley
Eu já estou velha e encostada num canto, ninguém mais quer saber de mim. É,... isto sempre acontece quando você fica idosa e não tem mais aquele brilho, não é mais bonita, não é mais gostosa. Tem gente que diz que panela velha é que faz comida boa. Eu sinceramente não acredito, acho que isto é uma farsa. Tem uns que dizem que preferem as mais passadas, pois já estão mais amaciadas. Depois de muito me chutarem e de muitos isolamentos fiquei um bom tempo largada, sem ser tocada. Mas, antes por anos fui acariciada. Com o passar do tempo, a rotina foi mudando. Os encontros passaram a ser vez por outra conforme os dias e anos se sucediam. Os intervalos entre nossos encontros ficavam mais longos.

Bons tempos em que viajei muito, conheci muitos lugares, alguns bons, outros nem tanto. Lembro ainda da primeira vez que vi o mar. Foi em Ipanema. Era um dia de sol, fazia um dia lindo. Quanta gente bonita. E aquela areia, ah... Era macia e limpa, branquinha, branquinha, assim como eu.

É certo que fui mal tratada muitas vezes, mas na maioria das vezes cuidada com extrema doçura. Muitas vezes fui beijada e tratada também como troféu. Nunca me importei com isto, eu até que gostava. Sentia-me mais elevada e via o mundo por cima. Todos gostavam de mim e me disputavam como muita vontade. Uns eram grosseiros. Mas, muitos tinham classe e isto sempre foi o que mais me atraiu num homem, a sua classe e seu modo como me tocava. Aliás, estou com “ele” há mais de 15 anos. Eu o conheci quando ele tinha vinte e poucos anos. Era forte, vigoroso, um corpão, mantido por suas corridas pela Lagoa Rodrigo de Freitas ou pelas Paineiras, um atleta. Gostava de ir comigo para a praia, para o clube, para Búzios... Tinha vezes que não desgrudava de mim e ficávamos o dia inteiro juntos. Adorava quando me envolvia em seus braços.

Passeei por muitos lugares: Aterro do Flamengo, Alto da Boa Vista, Lagoa, Barra da Tijuca e depois: Laranjeiras, Gávea, Niterói, Botafogo, São Cristóvão e até Teresópolis. Enfim, conheci os melhores locais que se podia conhecer.

A minha natureza sempre foi dada para esportes, eu sempre gostei mais de futebol. Minhas irmãs já eram mais chegadas a outros esportes, vôlei, basquete e até tênis. Como eu era mais “fortinha” não servia para o vôlei, em compensação minha irmã mais rechonchuda viu-se logo no basquete, percebi logo que ela nasceu para isto.

Voltando-me para “ele”, sempre o chamei de meu dono, aliás, ele fazia questão de dizer isto a todos. Em algumas ocasiões os outros é que diziam por ele: “é dele”.

A minha idade? Esta eu não revelo, onde já se viu, perguntar isto a uma senhora? Aliás, muitos me chamam de senhora como sinal de respeito, mas eu prefiro ser chamada de você.

Hoje me sinto usada e acabada. Uma inútil. Nunca se devia ficar velha. Estou jogada num canto e lá permaneço. Estou toda flácida, dado o tempo que fiquei largada ao léo.

Gostei muito de ter ido uma vez ao Maracanã para um pelada com os amigos “dele”. Eles alugaram o campo por uma baba, e isto foi só por pouco mais de uma hora e meia. Mas foi uma bela tarde.

Pelada sempre foi uma palavra mágica para mim. No entanto, gostava mais dos campeonatos das coisas à vera mesmo, mas não há quem tire o charme de uma pelada bem disputada.

Nasci em São Paulo, mas logo vim para Rio, Lembro que era época de Copa do Mundo, assim como agora. Fui muito feliz em ter vindo para cá.

Meu dono, agora não me quer mais, assim como eu, está velho e não tem mais energia e disposição para me chutar. Embora muitos da idade dele ainda gostem de um joguinho.

Quem sou eu? Sou a bola que por muitos gramados andei. E agora busco minha redenção, pois é época de Copa e o pessoal decerto quer imitar os craques e os seus ídolos. Sai que é sua Taffarel! Oops, Dida.

Escrito às vésperas da Copa do Mundo de 2006.

Friday, June 01, 2007

Ainda indomada


Marylin - Andy Warhol
Aquela loira me deixa louco. Loura falsa é verdade. Talvez por isso mesmo é que fico imaginando o desenho de seus ralos e negros pêlos pubianos. Seus peitos inflam a camisa preta e mostram o acentuado volume. Afagar-lhes não seria má idéia, mas esmagá-los com as mãos é mais convidativo. Depois tirar-lhe os seios, arrancá-los do soutien-gorge mal empregado. Afinal são mais belos quando soltos e irrequietos. Ora, estão se pronunciando num espetar a camisetinha. Largos quadris e nádegas proeminentes realçam o corpo da cavala. Coxas grossas e um capô entre as pernas. Olhar isso de perto deixa sem graça até o mais safado dos moços. Não sou diferente, evito, mas que vem a tentação, e na esguelha espio os contornos. A imaginação vai longe.

E ela continua, se achando segura, pronta para o abate. Sinto um corpo retesado e cheio de vontades ao lhe apertar a cintura. Tensa, muda de postura, vê-se frágil. Pensa em beijos e namorado. O medo de se perder de tesão é o que lhe faz fugir das situações de toques, não gosta de ser tocada. Parece ter maior sensibilidade, daquelas que se entregam às vontades íntimas a qualquer boa investida. Nasceu para isso, sempre pensa. Na verdade não sabe, mas acha que vai bem quando o assunto é sexo.

Quer muito ser fornicada, com força e depois carinhos, é como fica em devaneios.

Copiado do blog: Erótico? (http://erotico.blog-se.com.br)

Tuesday, May 22, 2007

Acordei no meio da madrugada

INSOMNIA FATALE - Robert Gligorov
Hoje acordei às duas da manhã. Porque eu não sabia ainda. Só sei que senti um solavanco. Um estremecer dentro de mim. Uma sensação insólita. Não foi nenhum barulho, não houve nenhum terremoto, nem mesmo alguma razão fisiológica. Acordei do nada. Olhei para o teto assustado. Caminhei até a janela. Nada vi. Nada acontecia lá fora. A noite era cheia. Raros carros passavam nas ruas. Pessoas também. Estava fria. Algo ainda me incomodava. Não sabia o quê. Um aperto no coração. Tentei dormir. Não consegui. Liguei a televisão. Desliguei a tevê. O estranhamento não arrefecia. Parei. O mundo parou. De tanto brigar na cama, cansei e finalmente adormeci. Você havia partido naquela noite. Um acidente aconteceu. Seu coração tinha parado e o meu por instantes também parou. Parou de pulsar de amor. Clamou pelos sentimentos. Brigou com o inevitável, não se conformou. Mais que a vida, aquela noite me levou a vontade de viver.

Friday, May 18, 2007

Em desalinho


Tete D'Homme II from the series - Portraits Imaginaire - Pablo Picasso - 1969
Sempre fui estabanado. Onde fosse derrubava tudo. Talvez pelo crescimento acelerado ainda quando jovem e a coordenação motora deficiente. O corpo tinha crescido e a noção de espaço não acompanhara.

Já no colégio de primeiro grau, hoje ensino fundamental, me via às voltas com as minhas pernas compridas demais. Tropeçava tanto que ganhei o singelo apelido de Tropeço numa referência a um personagem da família Adams.

Com as meninas então era um desastre, ficava todo atrapalhado. Juntava-se ao já natural desastrado uma pitada de timidez e completava-se o vexame. Era um tal de esbarrar, derrubar meninas, cair sentado e até se machucar. Depois, levantar e ver todos aos risos e apontando para mim como se fora um total retardado. Aliás, acho que a impressão era mesmo essa. Quem não me conhecia tinha por mim a nítida opinião de estar diante de um imbecil. Só quem estudava comigo, sabia das minhas notas e tinha certeza que era só mais um desajeitado.

Na educação física me escondia ao máximo, mas seria absurdo conseguir, pois era o maior da turma. Além disso, só por causa da altura achavam que deveria um excelente jogador de vôlei, basquete ou goleiro de futebol, estava eu em destaque. Mas, a descoordenação era tanta que sequer a bola acertava.

Os anos foram passando e o drama aumentando, namorar era confuso, beijar sem machucar a menina, impossível, pisar no pé, algo comum. Dançar era risível, se assemelhava mais a um pangaré num concurso de adestramento tentando ser garboso.

A partir de uma época comecei a me incomodar muito com aquilo. Perguntava-me: por que eu era assim? Acompanhar uma aula de ginástica na academia era hilariante até para mim. Enquanto todos estavam indo para um lado, lá estava um único atrapalhado no sentido contrário. Alguns mais previdentes e velhos conhecidos já se afastavam sabendo do encontrão inevitável. Os risinhos não mais existiam, já éramos adultos, mas os olhares de reprovação talvez fossem ainda piores.

Certo dia, fui convidado para jantar na casa de uma namorada. Tomei todas as precauções, me distanciei do que eu podia derrubar, dos copos à mesa e até dos vãos entre os pés do móvel. Mas, esqueci da empregada. Eis que ela veio com uma jarra de suco a servir. Perguntaram: “quer suco?”. Prevendo o pior, agradeci e recusei. Mas, a mesma voz insistiu: “você precisa provar o suco da Marlene”. Assenti com a cabeça e... virei-me bruscamente, resultado: derrubei tudo. Acachapei a empregada e o que havia por perto. Uma hecatombe completa. Apavorei-me, levantei rapidamente tentando acudir e com os joelhos fiz pior, derrubei todo o jantar. Até mesmo a ex-futura sogra me olhou com ar de reprovação e porque não dizer de insatisfação. Puxou a filha de lado e lhe cochichou algo, como que dizendo: “você namora esse idiota?”. Resultado: nunca mais vi a namoradinha.

Os traumas só fizeram crescer e até uma coisa até então despercebida me ficou mais clara. Afora acanhotado era também incrivelmente desalinhado. Mesmo de terno ficava mulambo. Por mais que as roupas estivessem bem passadas e ajustadas era maltrapilho. As vestes não caíam bem. Até para alfaiate particular apelei, nada resolvia e ainda fui obrigado a ouvir dele o seguinte: “jamais vi coisa igual, você tem altura, não é gordo nem magro, mas é sempre mal-ajambrado, parece sempre um pelintra”. Nem sabia o que queria dizer aquilo, mas boa coisa não era. Naquele dia chorei como criança, que nem como criança havia chorado.

Friday, May 11, 2007

Lá no Cícero

Woman on a Terrace - 1907 - Matisse
As aulas são diversões, um acontecimento preliminar ao recreio – a maior das alegrias – o encontro com os colegas, com as garotas.
De soslaio, acanhadas elas vêm e vão. São mais espertas.
Tudo é diversão, preocupação só com provas e mesmo assim nem tanto. Como é maravilhosa essa convivência.
As meninas ainda são garotas. A saia pregueada dá o “charme”, os rostos cheios de sorrisos e olhares acanhados completam a primeira impressão. Crianças, gurias, futuras mulheres.
Ingenuidade, cabelos soltos pululam ao som da Atlântica. Em algumas é possível ver o mar, calmo, zen, mas às vezes bravio. Todos os meninos querem saber o que se passava dentro daquelas cabecinhas que nada falam. Cochicham por entre os corredores, risinhos. Romances só com os mais velhos, conosco, amizades. Como isso nos chateia! Desejamo-las para nós. Mas a malícia ainda está longe, somos só meninos.
Elas olham para os homens. Maldita natureza que nos dá o desejo e a convivência e não nos dá as armas.
Lindas, pensam em romance, em beijos, em carinhos e no cavalheiro que as vêm buscar. Suas curvas ainda se torneiam por um corpo virginal. As brincadeiras são infantis, maldades não encontram eco. A timidez, presente nos guris, não os deixa ir adiante. Quanto tempo perdido!
A aula de educação física é o melhor dos momentos, é a hora que as veremos de shortinhos. Pernas lindas, cheias de penugens que as podemos desejar sem culpa.
Os idos de 1980 se foram, mas as lembranças teimam em nos trazer as satisfações pueris de outrora. Caros colegas como foi maravilhoso tê-los nesses anos de intensa felicidade clandestina.

Publicado no site Comunique-se em: 07.05.2007

Saturday, April 07, 2007

Gertrudes

Eu entrei no banheiro e lá estava ela. Num canto, encostada na parede. Confesso que me assustei. O armário estava entreaberto, então fiquei pensando na possibilidade de a criatura ter mexido em algo. Elucubrei sobre a pasta de dente, a escova de dente – que nojo, o pincel para barba – sou das antigas e alérgico às espumas - e também sobre o pente. Mas, aparentemente nada havia sido mexido ou tocado.

Fiquei olhando-a, o mesmo ela fazia, ressabiada, será que ele vai fazer algo?

Ficamos nos fitando por alguns instantes. Aquele ser permanecia praticamente imóvel.

É claro que já havia visto uma, mas cheguei mais perto e constatei – ou recordei: em cada uma das patas existiam igualmente cinco “dedos”.

Gertrudes era cinza-castanho – quase branca, pequena e muito desconfiada. É claro que não me sentia à vontade com ela ali, mas também não achei direito tentar qualquer coisa contra ela, até porque seria uma batalha pegá-la e colocá-la para fora. Matar nem pensar. No fim das contas, fiz o que tinha que fazer no banheiro e saí. Mais tarde, a procurei, acho que senti sua falta. Abaixo a foto dela, quem a vir, por favor, me avise. Beijos.

Tuesday, March 13, 2007

Um ranzinza em Mauá


Bridal Veil Falls, Yosemite - William Zorach - 1920
Certa vez, um colega foi convencido a ir à Visconde de Mauá pela namorada. E logo foi alertado: “Cuidado, entre o Rio de Janeiro e Mauá há uma estrada muito ruim”. Mas, acho que não fui enfático o bastante e lá foi ele. Encaminhou-se bem devagar com seu carro novinho, com menos de 300 quilômetros rodados, em pleno fim de ano, especificamente, em 31 de dezembro de 2001.
Pois bem, ele voltou, conseguiu voltar! Isto já foi um bom sinal. Então me contou sua aventura e que aventura! Primeiramente pegou uma estrada engarrafada, a Via Dutra, cheia de automóveis, em função da data. Mas depois tudo bem, isto até chegar a RJ-163, que fica depois da entrada de Resende, a Estrada Via Dutra-Mauá que tem apenas 16 mil metros com um enorme pesadelo de buracos em terra batida. O pior de tudo é que tentaram reformar esta saramenha – não adianta procurar esta palavra no seu dicionário, guarde só a sonoridade que é o que vale – dizia ele. Acho que foi esta reforma que determinou a primeira aplicação de uma das leis de Murphy, nada é tão ruim que não possa ser piorado.
No que ele me disse que a via tinha sido reformada, exclamei uma sonora frase: “Ah... então foi uma viagem tranqüila!”. “Não, ao contrário, foi bem pior, com as fortes chuvas, o recapeamento se esfacelou e a estrada ficou horrorosa, com asfalto e pedrinhas soltas”, falou em tom chateado. Buracos mil e uma visão dos infernos, isto quando se via alguma coisa, pois a chuva parecia que vinha em baldes. A cada buraco, reclamava: “Que m@#%&!”. Sentia cada remexida ou patinada no seu carro como se fosse no corpo, pareciam pontadas no coração, o carro novinho tomando esbarrões, afundando num misto daquela mistura exótica de lama e excrementos de petróleo. Um solavanco, uma facada na sua barriga, assim se sentiu durante o escasso percurso... até o fim. Um pesadelo que durou pouco mais de trinta minutos, mas que pareceu uns três anos, provavelmente este foi o efeito do envelhecimento que sofreu frente ao imponderável filme de terror.
“Mas e aí? E as cachoeiras de Maromba etc.?”, perguntei. “Que cachoeira é o caramba! Nada de Alcantilado, Cachoeirinha, Poço da Areia, Poço da Raiz, das Muralhas, Maromba, marimba, maramba, marumba é o cacete!” “Que isto? Calma, não precisa ficar bravo!”“Não vi nada, naquela cidade só chove!”, disparou.“E você nem sabe de nada, ainda atolei na chegada”, complementou.“E a festa de Reveillon?”, disse. “Ta querendo me sacanear, né?. Fiquei atolado num outro caminho que levava ao destino final e não pude ir a lugar nenhum”. “Fiquei num casebre – na verdade, era uma casa enorme, muito legal e totalmente rústica – aliás, aí estava o problema. Na hora que cheguei, por volta das 22h30, o local estava escuro. E o fato da casa ser para lá de rural foi um agravante, para se ter uma idéia, a geladeira era a gás!” Lá estava ele no meio do nada, sem iluminação externa, com o carro atolado a uns 200 metros do casarão e chovendo a cântaros. E dentro deste panorama teve que rodear a casa toda, uns 600 metros quadrados, a procurar a instalação de gás, num breu total, dispondo somente de uma lanterna, pisando no chão mole e ensopado. Pronto. Achou, mas, depois só de duas horas, ou seja, sua passagem de ano foi no meio do mato, embaixo de uma chuva torrencial, procurando a caixa de energia, not found e a fonte gás, ok. “As únicas pessoas que encontrei naquela hora, mesmo que só em espírito, porque nem mesmo eles conseguiriam chegar até acolá, foram o Raoni, o Paulinho Paiacan e o Juruna. Não tá ligando os nomes ao evento? Um autêntico programa de índio!” Eis que o meu colega passou o resto da noite resmungando, como só ele consegue. Tenho pena dos ouvidos da sua namorada. Nem quero imaginar as broncas dadas na sua garota – já que ela é que planejara a viagem. Eu o conhecia muito bem pelo seu tom sempre aborrecido.
No entanto, a aventura ainda não havia terminado, finda a noite que parecia sem fim, veio o dia seguinte, o primeiro de um ano que prometia. Primeira tarefa, desencalhar o carro, já que a chuva não parava, era deste modo que ele imaginava como o veículo se encontraria, parado em alguma beira de riacho ou à deriva. Mas não, o seu Corsa continuava lá, praticamente isolado no meio da nothingland. Assim, o amigo se sentia ao olhar a sua volta. As paisagens eram iguais para o que quer que olhasse, nada, nada e nada. A autêntica terra do nada. Depois de muito caçar madeiras, galhos etc. conseguiu finalmente desatolar o carro.
“Ótimo, agora vamos ao churrasco na casa de fulaninho”, pensou. Meia hora depois estava do outro lado de Mauá com alguns amigos da Sra. patroa. Conversa vai, conversa vem, ele nota que algo está errado. Existe um clima de animosidade entre dois dos amigos de sua namorada. A carne começa a sair e o ambiente é outro.
Ali bem próximo estavam pousadas muito charmosas e românticas, lugares que tencionava levar sua garota para que o ambiente entre eles melhorasse. Entretanto o aguaceiro não dava trégua, como estavam ao ar livre, foi montada uma tenda, mas uma tragédia aconteceu e a tendilha desabou em cima da churrasqueira. Um corre-corre danado e o stress de antes reapareceu, pronto é o que faltava para os dois coleguinhas começarem a brigar entre si. Apartada a briga, alguns sopapos depois, não havia mais clima. O casalzinho amigo decidiu-se por ir embora e de barriga vazia. Sabe-se que a cidade tem um dos melhores circuitos gastronômicos do estado. E ele que tanto havia insistido por ir a um restaurante e tinha sido demovido por causa da insistência da sua cortejada! Mas, depois do desastre da carne, era o que ele precisava, então desandou a falar um monte de barbaridades para ela, que sicrano é assim, fulano é assado. Coitada dela, seu ouvido estava tão cansado que ela propôs a volta para o Rio de Janeiro. Todavia, decidiram passar pelas pousadas para saber onde poderiam ir numa próxima vez, mas o ambiente estava tão ruim entre os dois, que só fez criar mais discussões. Ele metralhava a namorada “olhe só a Verde Que Te Quero Ver-te, a Quinta da Grama, a Fronteira Arte e Lazer etc.” se referindo às pousadas maravilhosas que poderiam ter desfrutado. Cheia de tanto ouvir baboseiras e reclamações, insistiu para ir embora logo. Parecia um presságio.
No meio da estrada, já de volta ao Rio, em meio ao pé-d’água que caía, a namorada começou a passar mal e precisou, a todo custo, fazer o número “2”. Justo ali, no meio da estrada. E o depois, como fica? Como fazer? Com uma ajudinha dos guardanapos “Clean Next”, fez-se e concluiu-se, após uma encostada estratégica num cantinho da via. Surpresa maior é que, sabe aquilo que falei do meu colega lá no início? Pois é, é tudo mentira. O amigo, na verdade, era eu mesmo. No entanto, os eventos da viagem foram verdadeiros, uma das poucas jornadas que fiz em que tudo, tudo deu errado. Visitem Mauá, pois é inesquecível.

Publicado no Comunique-se em: 27/09/2006
http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3D34788%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D25971900964%26fnt%3Dfntnl

Monday, March 05, 2007

Olhos Verdes


Sensual - Royo
Foi em meio a um mundo de fantasia que pela primeira aqueles olhos fitaram-no. Passaram-se alguns dias de intensa conquista e galanteios. Agora sentado a sua frente olhava para seus olhos verdes. Suas íris irradiavam uma alegria, uma felicidade, mesmo que pueril e fugaz. Logo abaixo seu sorriso confirmava a impressão. Fartos eram seus seios que nos “apertos” pareciam querer saltar de dentro da pequena camisetinha vermelha. Ela combinava com o interior de seu peito que palpitava.
O que fazia aquela menina-mulher se enganando numa mesa de bar? Seu sorriso era desejoso de algo mais. Mostrava por vezes um olhar de menina e outro sacana, de mulher, provocativo. Cada gesto pintava um novo cenário, instigava um ao outro, um convite ao prazer.
Suas coxas roliças apertadas numa calça cáqui queriam formar um coração junto a cintura. Elas não mostravam nada, mas estavam prontas. Seus poros eriçados a cada aproximação mais selvagem sempre se soerguiam nos seguidos beijos e mordiscadas em seus lábios, orelhas e língua.
Em algumas roçadas de corpos seus olhos se fechavam e entreabriam como se transportando a um mundo de prazeres. Os dedos viajavam pelos corpos sentindo as peles. O desejo estava à mostra e persistia por horas, a libido em alta, mas a consciência e a cultura jogavam proibindo passos mais ousados. Fases mais atrevidas eram decapitadas.
Um turbilhão de sentimentos e impulsos elétricos é no que havia se transformado aquele encontro dos corpos. Os olhares se buscavam, o que diziam aqueles pequeninos olhos verdes? Neles se viam, lá estavam os próprios reflexos. Por vezes se divertiam nesse jogo de se descobrir e um sorriso estava embutido a cada contemplar. Como pode também um olhar sorrir?
O que corpo e o coração buscam? Cada momento é único. Do que vale a vida sem emoções e trocas?
Cada respiro, suspiro e um beijo inflamado e se aqueciam e... suavam. Sensações múltiplas se concentram numa única cena. Braços se entrelaçam, corpos se tocam e buscam afagos, carinhos e apertos. Tórax se unem, bocas se enroscam, se tocam, se mordem, se exploram. Todo o corpo está voltado para aquele momento. Até os olhos se fecham, é capaz de jurar-se que até se ouve menos ao redor.
São duas criaturas num transe. O corpo se prepara para algo mais, hormônios em ebulição, tudo se movimenta dentro do organismo, medos são perdidos para que num instante a vida tome conta. Um enlace entre o mundo e aquele minuto. Para onde vão aquelas sensações? É custoso acreditar que aquelas vibrações se espalham pelo espaço e se perdem. Condensarão em forma de chuva? Contaminarão outros seres com o desejo e o amor? Se irradiarão por entre as pessoas?
Os cheiros transitavam entre os dois, as bocas suspiravam, as peles se sentiam, os toques pronunciavam os desejos, as mãos firmes puxavam os corpos em colisões suaves. Roçavam-se desejosos de estarem nus. As palavras pronunciadas, sussurradas completavam a cena.
Os momentos extasiados se fixaram naqueles olhos verdes. E permaneceram para sempre em cada memória.

Friday, October 27, 2006

Nova York, Cidade dos “Todos”


Nova York, Cidade dos “Todos”, por Carlos Zev Solano (*)

Todos os doidos estão lá, todas as modas dão seu ar da graça naquele lugar, todas as raças, credos, nacionalidades aparecem por ali. Onde mais se encontram pessoas que saem correndo dos prédios já pela manhã? E donde vem aquela praticidade que lhes é familiar? Você, por acaso, em algum momento se deparou com as embalagens deles? São demais, tudo abre como um simples ziper. Sabe aquela guloseima que de tão mal embalada demora-se horas para abrir e quando abre caí tudo no chão e você morre de raiva? Pois é, isto é impensável nesta cidade. Todas as embalagens são simples.

Aliás, outra particularidade é que toda e qualquer cena inusitada se vê por lá. E o mais curioso é que todos fazem aquele olhar blasé, como se nada estivesse acontecendo. Pode-se encontrar numa esquina o Stomp dando um show, no meio da rua, em plena Times Square e tem-se a impressão que é a coisa mais normal do mundo. E que tal entrar numa boate e somente ser capaz, passados alguns minutos, perceber que está num salão de beleza?! E se do nada você se depara com uma loura linda totalmente nua protestando contra a venda de peles de animal em pleno e rigoroso inverno nova-iorquino? O que pensar de um local assim? Lá, até mesmo o conhecido mau-humor dos sitiantes possibilita cenas incomuns, imagine um daqueles postes – a impressão que se tem é que todos os policiais têm mais de dois metros – fazendo poses ao direcionar o trânsito. E uns gays que saem com suas calças totalmente transparentes usando calcinhas vermelhas por baixo? Impossível não chamar a atenção não é? No entanto, depois de um tempo, você acostuma, pois estas cenas são mais comuns do que se idéie. Lembra daquele maluco corredor? Pois é, a vontade que tive no primeiro dia, logo ao chegar, foi parar o sujeito que saía correndo pela portaria e perguntar: “Hei, aonde se vai com tanta pressa?” ou ainda “Você também corre dentro elevador ou veio mesmo pela escada?”.


Outra, tem uma pizzaria fast-food na Rua 34 em que o atendente nunca espera você pensar no seu pedido. Titubeou por um segundo, ele dispara: “next”, ou seja, bobeou, volta para o fim da fila. Na hora dá vontade de soltar um palavrão, mas a cena é tão cômica que você se vê lá parado com cara de babaca e desanda a rir. O que fazer diante de um sujeito que nem pisca e berra “next” umas duas mil vezes por dia?


Esta é Nova York, uma cidade levada a sério por todos, mas hilária com todos,... Todos estes nova-iorquinos, todos loucos.



(*) Jornalista

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